terça-feira, 17 de novembro de 2020

A MATINTA PERÊRA DA BOA ESPERANÇA

Ilustração: Railson Wallace

Era ano de 1972, Igarapé-Miri era uma cidade pequena, mas aconchegante, o povo vivia da produção rural e da pesca.  Apesar de pequena, a cidade era bem arborizada o que durante o dia, fazia com as ruas ficassem cobertas por sombras, e principalmente no largo  (hoje Praça Sarges Barros), as noites ficavam mais escuras devido ao grande número de árvores frutíferas que deixavam as ruas mais bonitas, porém nas noites de inverno quando a chuva predominava na maior parte do dia e da noite, o aspecto do Largo e das ruas ao redor, assumiam uma paisagem assombrosa, causando medo aos moradores que precisavam se deslocar durante a noite.

Uma das travessas da cidade, que até hoje tem o nome de Quintino Bocaiuva, se estendia até 3 ruas em direção ao fim da cidade acabando na rua Padre Vitório, que passa em frente ao Cemitério Bom Jesus do Passos, dali em diante passa a se chamar de Estrada Alves Teixeira que tem um quilômetro de distância e foi feita para dar acesso à Boa Esperança onde era realozada  a tradicional festividade de Santa Maria e findava a cidade.

Na estrada Alves Teixeira, depois da rua Padre Vitório, a mais ou menos duzentos metros, morava a família de um carpinteiro de nome Pedro, que era casado com uma senhora de uns 50 anos de idade conhecida como Ana, e já tinham uns três filhos, sendo dois homens e uma mulher.

Era mês de Março e a chuva castigava nossa pequena cidade, nessa época as crianças não podiam usufruir do melhor espaço que tinham para brincar e jogar futebol, que era o Largo (atual Praça Sarges Barros), espaço onde tudo acontecia, pois lá estavam localizados, o Grupo Escolar, a Prefeitura, os Correios, o SESP, o Cartório, etc.

Este espaço também era cruzado por muita gente que se dirigia pra trabalhar, para ambos os lados da cidade, porém o Largo ficava intrafegável durante aquela época, pois no inverno, surgiam uma grande quantidade de olhos d´água e a areia que cobria a maior parte do espaço ficava mole, quando alguém tentava atravessar, se atolava até o joelho. A maior parte das pessoas que atravessavam diariamente o Largo nessa época, tinham que dar uma volta grande para chegarem aos seus destinos.

Na estrada Alves Teixeira, logo na entrada, cerca de uns 200 metros onde morava o casal Pedro e Ana, moravam também várias famílias, incluindo a do senhor Sr. Antônio, um homem de uns 50 anos de idade, que era pai do jovem Marçal, que devia ter uns 20 anos na época, e exercia a profissão de padeiro junto com o seu amigo Altino nas dependências do Círculo Operário.

Os dois todos os dias, saíam por volta de meia noite, ou 01:00h da madrugada em direção ao Círculo Operário que ficava localizado atrás da Casa Paroquial, onde ficam agora, vários pontos comerciais pertencentes à Paróquia de Sant'Ana de Igarapé-Miri, e lá no Círculo funcionava a única padaria que tinha na cidade.

Dona Ana estava gestante de uns 7 meses, seu marido trabalhava no interior de Igarapé-Miri, ele viajava segunda-feira e só voltava na sexta. Foi em uma noite de quinta para sexta, que Altino se preparava para ir para a padaria e ao chamar o Marçal que estava com febre e não podia ir, então Altino pegou a sua garrafa de café e saiu de casa para trabalhar, eram duas horas da manhã e ele já estava atrasado, fechou a porta, quando ouviu um choro de criança bem baixinho, que lhe chamou a atenção. Estranhou, pois no perímetro em que morava não tinha nenhuma criança recém nascida.

No início pensou tratar-se de um gato mas ao apurar o ouvido identificou que o estranho choro vinha da casa da frente, que era justamente a casa de Dona Ana, lembrou-se porém que ela havia comentado com a vizinhança que estava com 7 meses de gestante, na dúvida resolveu averiguar se o bebê não havia nascido prematuro.

Como o Sr. Pedro estava trabalhando para o interior e não estava na casa, Altino então se dirigiu até o outro lado da rua para escutar melhor. Ventava muito forte e frio, então o jovem aproximou o ouvido da parede da casa de Pedro, e se deparou com a porta da frente apenas encostada, empurrou de leve e bateu palma para chamar alguém, porém ninguém respondeu, e ele resolveu entrar nas pontas dos pés para não acordar as crianças menores.

O choro continuava, era um choro abafado, e ao chegar na porta do quarto que estava entreaberta, empurrou bem devagar e não avistou ninguém, tinha apenas uma rede atada, onde notou um volume de onde partia o choro. Curiosamente se dirigiu até a rede e ao abrir ficou petrificado de horror, ali dentro estavam as vísceras de uma pessoa e no meio de tudo daquilo, estava um feto que imediatamente parou de chorar, pálido ainda constatou que se tratava de uma criança do sexo feminino.

Suando em plena madrugada, Altino saiu da residência de Pedro, e ao chegar na rua, viu algo passar na escuridão, parecia voar, a noite era muito escura, aquele vulto emitiu um assovio tão forte que deixou Altino meio surdo, imediatamente todo arrepiado, atravessou a rua e entrou correndo em sua casa muito assustado. Sua esposa acordou e ele disse que tinha visto algo muito terrível, mas que não podia contar a ninguém, vendo o desespero do marido sua mulher conhecida por Luzia, resolveu acompanhá-lo até o Círculo Operário, pois ele estava com medo demais para ir sozinho.

Altino não parou de pensar no que viu e cada vez que lembrava, sofria calafrios. Após terminar o dia de trabalho, no fim da tarde, Altino então se dirigiu até a casa de Dona Merá, uma senhora de uns 70 anos, muito religiosa e que era devota de São Sebastião em cuja festa, na procissão durante a noite, cada um dos acompanhantes acendia uma Poronga (lamparina artesanal, alimentada por querosene que ficava acesa durante o cortejo), para que ela explicasse o ocorrido. Tia Merá como era conhecida, após ouvir o relato, explicou a Altino que se tratava de uma Matinta Perêra, e que Ana tinha herdado o fado de seus antepassados. Avisou também que ele deveria ter muito cuidado, pois ela poderia se vingar, o assombrando.

Na madrugada de sexta-feira, Altino e Marçal não foram trabalhar, com medo da vingança da Matinta Perêra. No sábado pela manhã, ao abrir a janela, avistou Pedro que vinha saindo de casa, saiu também da sua, chamou Pedro e perguntou:

- Pedro, você já sabe se o filho que Dona Ana espera, é menino ou menina?

Pedro respondeu:

- Não, mas a parteira disse que é um menino.

Diante da resposta de Pedro, Altino fez a seguinte colocação:

- Amigo eu posso apostar que é uma menina.

Nisto Dona Ana que estava na janela, olhou sério em direção a Altino e ele voltou a sentir calafrios, como se estivesse vendo aquelas vísceras dentro da rede naquela noite macabra. Pedro notando que algo estava acontecendo, disse:

- Vai pra dentro, Ana.

Depois que ela entrou, então Pedro perguntou o que estava acontecendo e Altino sempre dizia que não estava acontecendo nada. Pedro chegou até a insinuar que estava sendo traído pelos dois, começando a aumentar o volume de sua voz, foi então que Altino resolveu contar o que tinha visto naquela noite de terror.

Pedro não acreditou, porém combinou com Altino de viajar na segunda-feira e antecipar sua volta para sexta de madrugada. Na segunda, Pedro viajou e antes confirmou com o amigo que voltaria na sexta. De madrugada por volta de uma hora, Altino acordou Marçal,  que tinha dificuldade de se comunicar pois gaguejava muito e piscava sem parar, deu-lhe a garrafa de café e a lanterna, abrindo em seguida o guarda-chuva para proteger os dois, já que começava a chover bem fininho.

Saíram andando colados com a lanterna acesa apontada pra frente, vinham sem nada falarem, dobraram o canto em direção ao Grupo, e já estavam em frente ao Palacete da prefeitura, quando ouviram um assovio muito forte e um farfalhar de asas produzidos por um vulto, como se fossem de um grande pássaro sinistro que estava bem perto dos dois, o susto foi tão grande que o Marçal além de gago ficou mudo e com os olhos arregalados. Jogou a garrafa e a lanterna pra longe, indo parar em baixo do bacurizeiro, em seguida disparou numa carreira em direção à sua casa na estrada da Boa Esperança, de onde tinha acabado de vir. 

Altino pensando na vingança da Matinta, correu em direção ao Círculo Operário e lá chegando, jogou-se em cima dos sacos de trigo, sendo acudido pelo ajudante que já havia chegado e que vendo o estado em que se encontrava o seu chefe,  pediu socorro aos vizinhos, acordando várias pessoas, que ajudaram o padeiro a se recompor.

Depois de calmo, Altino explicou aos presentes que havia sido perseguido por uma Matinta Perêra e que queria saber onde estava o Marçal, pois após o assovio, não viu pra onde ele teria corrido. Os presentes se entreolharam e resolveram juntamente com Altino, ir atrás do Marçal. Como a lanterna tinha sido jogada longe durante a fuga, cada um pegou uma lamparina e seguiram em direção ao Largo, onde tinha acontecido a aparição.

Parecia um cortejo fúnebre, todos calados e temendo a todo instante, avistarem a tal Matinta. Ao chegarem em baixo do Bacurizeiro, frondoso como sempre e que ajudava a tornar ainda mais escura aquela noite de horror, procuraram e não avistando nada no local, gritaram várias vezes pelo Marçal, e não obtendo resposta alguma, resolveram ir até à sua casa que ficava ao lado da casa de Altino, que murmurava baixinho:

- A desgraçada resolveu se vingar.

A madrugada era gelada e ventava muito, ao se aproximarem da casa de Marçal, notaram uma pequena aglomeração de pessoas na porta, e ao se chegarem, foram questionados pelos presentes, todos queriam saber o que tinha acontecido. Ao entrar na casa, Altino olhou para o Marçal que  estava pálido, olhos arregalados e respirando com dificuldades, sentado em uma cadeira sendo amparado e abanado por seu vizinho que também gaguejava, porém explicou com dificuldades, que todos foram acordados com um grito medonho e ao abrirem as janelas avistaram a figura de um homem que vinha em desabalada carreira, e que só reconheceram que se tratava do Marçal, quando aquela figura se aproximou.

De repente ouviram um barulho na porta de entrada e todos se voltaram e se depararam com uma mulher toda molhada, era Dona Ana, vizinha da frente da casa do Marçal. Altino sentiu novamente o mesmo olhar tétrico daquela mulher, que olhando para ele perguntou:

- O que houve?

Atino então explicou a todos o que tinha acontecido e olhando para Dona Ana, pensava que só de atravessar a rua, não dava para ela se molhar daquele jeito que estava, ela só podia ser a Matinta Perêra que havia atacado ele e seu amigo. Em fim Marçal se livrou do choque em que tinha mergulhado durante o ataque daquele ser sinistro e começou a querer falar, mas ninguém aguentou esperar e todos se retiraram para as suas casas.

Os dias foram passando e finalmente chegou sexta-feira, até este dia, Altino não viu mais sua vizinha Dona Ana, nesta noite por precaução, Altino resolveu dormir cedo, porém com muita curiosidade pela chegada de Pedro e a possibilidade de talvez ver resolvido aquele mistério que já estava deixando-o maluco, durante a madrugada Altino não dormiu mais, ficou sem sono pois estava apreensivo demais.

De repente ouviu vozes como se estivessem discutindo, levantou-se e foi até a janela, abriu um pouquinho somente o que dava para olhar para a rua, olhou no seu relógio de pulso que marcava 4 horas, olhou para a rua nas duas direções e estava deserta e escura, as vozes continuavam se fazer ouvir e vinham da direção da casa de Pedro e Ana, então sentiu medo, fechou a janela e foi deitar-se novamente para esperar amanhecer.

De manhã bem cedinho, Altino espantou-se com baques na porta da frente de sua casa, estranhou, porém levantou-se para atender e ao abrir a porta deparou-se com Pedro que estava com olheiras e com a fisionomia cansada como quem não dormiu a noite inteira, deu-lhe bom dia e pediu para que ele entrasse, Pedro sentou-se em uma cadeira, estava pálido, parecia um cadáver e olhando para Altino, disse:

- Meu vizinho, quero lhe agradecer por ter me alertado, o que mais o senhor sabe da minha mulher?

Altino relatou mais uma vez tudo que havia visto naquela noite macabra em que entrou na casa de Ana ao ouvir o choro de criança, e explicou porque já sabia que o sexo da criança que iria nascer, era feminino. Pedro então relatou que ao chegar mais cedo do que Ana esperava, também encontrou as vísceras da sua mulher abandonadas na rede e aguardou que ele chegasse do seu fado para pedir explicações, então começaram a discutir.  

Pedro resolveu  mudar-se para Belém com toda a família aproveitando para pedir segredo ao vizinho. No mesmo dia, a família toda viajou deixando a casa fechada e somente depois é que foram levadas as bagagens e nunca mais voltaram para Igarapé-Miri.

A casa existe até os dias de hoje.

Material cedido pelo Sr. Gelfson Lobo (Professor Gel).

sexta-feira, 19 de junho de 2020

A NOIVA DA MAROMBA

Ilustração: Railson Wallace

A profissão de taxista em Igarapé-Miri, remonta dos idos da década de 70. Dois taxistas em especial, iniciaram as atividades na nossa cidade, o Sr. Antônio e Airton, que era conhecido como Ceará, por pura coincidência, ambos eram nordestinos.
Certa vez, Seu Antonio, foi fazer um frete até a cidade de Abaetetuba, como era de costume quase todos os dias. Desta vez, levaria um passageiro de nome Lúcio. 
Nessa época a cidade de Igarapé-Miri tinha somente uma via terrestre de entrada e saída, que era a Rodovia Moura Carvalho que inicia no final da Avenida Carambolas, ao lado do Cemitério Bom Jesus dos Passos, e vai direto até a PA-151 na Maromba.
Era véspera de finados, as famílias de Igarapé-Miri, além de realizar as visitas aos cemitérios da cidade e interiores do município, também iam acender velas para os parentes enterrados em outras cidades. Naquele dia, Seu Antonio por volta das 12 horas, como combinado, foi buscar um passageiro, que era bastante conhecido, pois era quem tomava conta do motor que gerava energia para a cidade, que funcionava na antiga Usina de Força e Luz, local onde hoje é a sede da Rede Celpa.
Seu Antonio, buscou o passageiro em sua casa e seguiu viagem rumo ao seu destino, que era a cidade de Abaetetuba. A estrada era de terra batida, assim, muitos buracos dificultavam o trajeto do antigo fusca, que era a marca do carro daquele taxista.
Seu Lúcio, o passageiro, era um homem calmo e de poucas palavras. Por conta do longo trajeto, Seu Antonio puxou conversa com o passageiro, para descontrair a viagem.
Como o Sr. Lúcio trabalhava ao lado do cemitério e a energia gerada pelo motor a diesel era ligada ás 18 horas e desligada ás 22 horas, Seu Antonio imaginou que talvez o seu passageiro já tivesse  visto alguma coisa estranha, algo sobrenatural, no dia a dia, melhor dizendo na noite, isto porque, depois que ele desligava o motor, a cidade ficava totalmente escura e silenciosa, sendo que quase sempre, ele ainda fazia a limpeza do local, troca de óleo e outras coisas, saindo muito tarde da antiga usina.
Foi então que o passageiro saiu do seu silêncio e disse que não gostava de comentar sobre o assunto porque entendia que os mortos devem descansar em paz. Com muita insistência de Seu Antonio, o Sr. Lúcio  resolveu revelar um fato que ele presenciou. Disse que certa vez, estava se preparando para retornar para a sua casa, após desligar o motor da Usina de Força e Luz.
A cidade estava em total escuridão, não havia ninguém nas ruas. Quando saiu da usina, olhou para o lado do cemitério, como costumava fazer todas as noites, e ao olhar para o lado oposto, para o largo onde morava, em direção à Capela de Bom Jesus, que foi reerguida no mesmo local, na esquina da Trav. Generalíssimo Deodoro com a Padre Vitório, avistou uma mulher que usava um vestido todo branco, e com uma vela acesa nas mãos.
A mulher estava saindo da Capela e vinha em direção ao cemitério. Ele disse que se arrepiou todinho, e com medo daquela cena, escondeu-se na usina, apagando a lanterna que tinha ligado pra ir embora. Ficou olhando pela fresta da porta, e viu que a mulher que agora passava em sua frente, tinha os cabelos loiros e usava um vestido branco, parecendo flutuar. Depois que aquilo passou, por curiosidade Lúcio acompanhou com o olhar até ela entrar no Cemitério. Naquela noite disse ele, que não conseguiu dormir, imaginando aquela cena.
Ao chegarem em Abaetetuba, Antonio deixou o passageiro e retornou para Igarapé-Miri imediatamente. Devido as péssimas condições da estrada, a viagem era demorada e já eram quase 5 horas da tarde. No retorno, seu Antonio voltou sozinho e veio pensando naquele relato que ouviu do passageiro.
Ao se aproximar da cidade, exatamente na famosa ponte da Maromba, por volta das 18 horas, avistou uma mulher que fazia sinal para que ele parasse, ela estava vestida toda de branco e tinha em uma das mãos, um buquê de flores. Antonio preocupado por se tratar de uma mulher sozinha e em um lugar afastado, parou para levar aquela passageira, que para ele, estava desprotegida.
Seu Antonio ao parar, ouviu da mulher, um pedido de ajuda para chegar na cidade. O taxista então, decidiu ajudar aquela mulher, e permitiu que ela entrasse no táxi com o buquê que trazia na mão. Ao dar seguimento a viagem, perguntou onde a mulher ia ficar, e ela respondeu que ficaria em casa. Antonio então perguntou o endereço da moça, e ela respondeu somente que era sua vizinha.
Pelo trajeto, Antonio entrou na cidade, e ao passar pela Goela da Morte, avistou a sua casa, que ficava atrás do cemitério, e disse para a estranha passageira que não lhe cobraria nada mas que esperasse no carro enquanto ele daria uma parada em frente à sua casa para ir ao banheiro, no que a mulher concordou.
Antonio parou em frente à sua residência e foi direto ao banheiro, deixando aquela estranha mulher sozinha em seu veículo. Mas quando retornou, a mulher não estava mais no carro, porém o buquê que antes ela segurava com tanto apego, estava no banco do carona, onde a mulher ficou sentada durante a viagem.
Antonio estranhou aquele gesto e resolveu seguir de carro até a esquina da antiga Usina de Força e Luz, e lá estava um sapateiro conhecido pelo apelido de Caroncho. Este, era morador antigo da esquina oposta a antiga usina, e morava bem em frente ao cemitério.  
Antonio perguntou ao sapateiro, se ele tinha visto uma mulher loira e vestida de branco passar naquela esquina. De pronto, Caroncho informou que sim, ela teria vindo da estrada (Rodovia Moura Carvalho), e entrado no Cemitério Bom Jesus. Antonio então resolveu descrever a mulher para ter certeza, e no final caroncho confirmou tratar-se da mesma pessoa.
Assustado, Antonio ficou pálido, e Caroncho notando a situação do amigo perguntou o que estava acontecendo. Neste momento, Antonio saiu do carro com o buquê de flores na mão e narrou o que Lúcio lhe contara durante a viagem. Os dois se olharam e decidiram ir até o cemitério a procura da mulher. Já passava das 18hs e alguns minutos depois de adentrarem no cemitério, Caroncho gritou:
- Lá está ela, é aquela!
Ao virar-se, Antonio não viu ninguém, então perguntou ao sapateiro:
- Onde?
Foi então que Caroncho apontou para uma sepultura onde destacava-se a fotografia de uma mulher, e sob a mesma os dizeres “Aqui jaz M.P.R” nascida em 01/11/1950, falecida em 01/11/1969. Depois de ficarem mudos por um tempo, constataram tratar-se da mesma pessoa.
Antonio  lembrou do buquê que ainda estava intacto em suas mãos, então depositou suavemente as flores sobre a sepultura. Depois, saíram correndo assustados.
Durante algum tempo, Caroncho acendia velas no túmulo da mulher, pedindo paz para sua alma.

Material cedido pelo Sr. Gelffson Lobo (Professor Gel).

sexta-feira, 12 de junho de 2020

O FOGO SOBRENATURAL

Ilustração: Railson Wallace

Em meado da década de 50, a pacata cidade de Igarapé-Miri, ainda não possuía sistema de distribuição de energia elétrica 24 horas por dia, sendo a iluminação noturna, feita através de uma caldeira e máquina movida à lenha, que acionava um gerador de fabricação inglesa, gerando energia por algumas horas, durante a noite.

A antiga Usina de Força e Luz, local onde ficava a caldeira e todo o maquinário, era localizada ao lado da Casa Paroquial, na rua denominada hoje, de 7 de Setembro, no local onde hoje existe um posto de gasolina. O responsável pela iluminação, era um senhor de nome Alves, morador de uma casa humilde de palha, que ficava próxima ao Cemitério Bom Jesus dos Passos.

A lenha era colocada para queimar na caldeira, no início da noite, e todos os dias por volta das 21 horas, Alves pedia para que sua esposa e sua filha, o acompanhassem até à usina, para retirar parte da lenha, assim, a energia seria desligada aos poucos. A filha de Alves sempre relutava para não ir, pois não gostava de sair naquele horário. Mesmo assim sua mãe insistia, e ela sempre acabava aceitando o convite.

Naquela época, não existia a UBS (SESP) e nem a Caixa D’Água, sendo o local onde hoje está a Praça Sarges Barros, apenas um grande largo, com várias árvores, e o palacete no centro. 

Quando saíram da usina, chegando próximo ao Cemitério Bom Jesus dos Passos, viram uma luz que vinha do chão. Eram pequenas chamas de fogo, que se movimentavam com o vento.

A esposa de Alves curiosa com aquela cena, pediu para que seu marido a acompanhasse para ver de perto aquele estranho fenômeno, tendo seu pedido negado, pois Alves estava com medo. 

Desde criança, os pais de Alves, sempre lhes contaram histórias de dinheiro enterrado pelos cabanos, e que em Igarapé-Miri, existia muito dinheiro enterrado, sendo esse tesouro, amaldiçoado, pois quem tomasse posse dele, queimaria em fogo.

O mesmo fenômeno também foi presenciado pela família de Alves, na rua hoje denominada de Lauro Sodré, nas proximidades de onde hoje está a agência dos Correios. Próximo dali, existia uma antiga padaria, que para ser construída, foi necessário cavar alguns buracos para fincar as estacas de madeira, sendo que durante os trabalhos, foram encontrados vários potes cheios de moedas antigas, do tempo da Cabanagem, que foram enterrados novamente, naquele mesmo local.

Baseado nos relatos da Sra. Ruth Pureza. 

sexta-feira, 5 de junho de 2020

A MOÇA DO CEMITÉRIO BOM JESUS

Ilustração: Railson Wallace

O caso mais antigo sobre a Moça do Cemitério Bom Jesus que temos conhecimento até o momento, aconteceu no dia 16 julho do ano de 1996. Dênis Araújo era um jovem de 23 anos, nascido em Belém, mas que há dois anos (desde 1994), morava na Cidade de Boa Vista, capital do Estado de Roraima.

Em julho de 1996, Dênis estava de férias de seu trabalho em Boa Vista e decidiu visitar os seus familiares em Belém. Na capital paraense, conheceu a esposa de seu irmão, a sua cunhada, uma miriense, que o convidou para passar o mês de julho em Igarapé-Miri, pois durante esse período, acontecia uma grande festividade religiosa que movimentava toda a região, a Festa de Sant’Ana, padroeira da cidade.

Dênis embarcou para Igarapé-Miri, junto ao seu irmão, sua cunhada e dois amigos. Ambos se hospedaram na casa da mãe da esposa de seu irmão. Eles chegaram em Igarapé-Miri na manhã do dia 16 de julho, no exato momento em que acontecia o Círio de Sant’Ana, o visitante logo saiu para conhecer a cidade.

As 23 horas do primeiro dia da festividade, Dênis saiu para uma festa que acontecia no antigo Salão Tropical, acompanhado de seu irmão e sua cunhada. A festa era comandada pela aparelhagem Equatorial. Ambos se divertiram muito durante a noite, até que as 3h da madrugada, eles foram embora, mas Dênis decidiu ficar na festa. As 4 horas, apareceu uma moça vestida toda de branco que abraçou e beijou Dênis, ambos namoraram a madrugada toda. A moça misteriosa levou Dênis para um canto escuro do Salão Tropical, onde ficaram abraçados e trocando carícias.

As 5h30 da manhã, a moça decidiu ir embora, convidando Dênis para acompanha-la, andaram juntos, de mãos dadas pela rua Padre Vitório, até chegarem no portão do Cemitério Bom Jesus, que estava fechado. Em questão de segundos, quando Dênis virou o rosto para ver se alguém presenciava a cena, ao olhar novamente para o portão, a moça já estava dentro do cemitério, Dênis pulou o muro para segui-la.

Dentro do cemitério, a moça sentou-se em um túmulo, e Dênis deitou-se em seu colo, ela lentamente foi se deitando em cima da sepultura. Naquele momento, Dênis adormeceu profundamente, acordando somente as 6 horas da manhã, com o sol batendo em seu rosto e o barulho dos trabalhadores do Cemitério abrindo o portão.

Ao levantar, viu o nome de Arissandra na sepultura e saiu assustado do cemitério, os trabalhadores ficaram olhando para Dênis, estranhando aquela cena incomum. Na esquina dom Cemitério, encontrou o irmão e a cunhada que o procuravam. Dênis explicou o que havia acontecido e juntos entraram no Cemitério Bom Jesus. Ele mostrou para a cunhada, a sepultura onde dormiu e ela logo lembrou da história de Arissandra, explicando que todos os anos ela aparecia para encantar os visitantes durante a Festa de Sant’Ana.

Outro caso aconteceu no dia 26 de julho do ano de 2002, último dia da tradicional Festividade de Sant’Ana de Igarapé-Miri. Durante o período do festejo dedicado à padroeira, a cidade recebe milhares de turistas vindos dos municípios vizinhos ou até mesmo pessoas vindas de outros estados do Brasil, ou de outros países.

Tinha chegado para participar da festividade em Igarapé-Miri, um jovem chamado Marcos, que morava na cidade de Moju. Ele ficou hospedado na casa de um amigo que residia no Bairro da Matinha.

Às 18 horas, Marcos saiu sozinho para o arraial, onde ficaria até o horário da queima de fogos, depois, iria para uma festa em um salão que existia na cidade. Ao chegar no arraial, conheceu uma moça muito bonita e educada, que vestida toda de branco, se apresentou pelo nome de Arisandra. Marcos, ao abordar a moça, pediu algumas informações, pois pouco conhecia a cidade de Igarapé-Miri, mas ficou conversando por horas com aquela jovem. Juntos, tomaram sorvete, brincaram no parque, e depois, acabaram namorando.

A moça era tão bonita, que mesmo a conhecendo por pouco tempo, Marcos logo se apaixonou. As horas foram passando, e assim que o relógio marcou as 23 horas e 45 minutos, faltando pouco tempo para a queima de fogos de encerramento da Festividade, a moça despediu-se, e desesperada, disse que tinha que ir embora, pois seu pai era muito ciumento, e algumas vezes, até mesmo violento, e não permitia que ela chegasse tarde em sua casa, pois era duramente castigada quando isso acontecia.

Não querendo perder a moça, Marcos disse que a levaria até à sua casa, e a pediria em namoro para o seu pai. A moça falou que não, pois ele de forma alguma, aceitaria que ela namorasse, e depois, saiu andando com muita pressa.

Escondido, Marcos seguiu a moça, que saiu do Largo de Sant’Ana, e desceu pela Avenida Carambolas, até à Rua Padre Vitório, onde fica a entrada do Cemitério Municipal Bom Jesus dos Passos. Escondido atrás de uma das mangueiras da Praça Sarges Barros, Marcos viu a moça entrar no cemitério, e sumir na escuridão.

Curioso, Marcos entrou no cemitério, à procura de sua amada, mas o que viu, o deixou paralisado, pois a primeira sepultura que avistou, estava escrito o nome Arisandra, o mesmo nome da moça que passou a noite com ele no arraial de Sant’Ana.

Assustado, Marcos saiu correndo do cemitério, e alguns minutos depois, passou a sentir fortes dores de cabeça, que duraram dias. Após este acontecimento, Marcos nunca mais veio à Igarapé-Miri, pois tinha medo de voltar a ver a moça do cemitério Bom Jesus.

A sepultura de Arissandra, é uma das primeiras ao lado esquerdo, na entrada do Cemitério da cidade de Igarapé-Miri. Arissandra era uma menina de 12 anos, que foi brutalmente assassinada pelo seu próprio pai, em abril de 1989. Ela morava no Rio Pindobal, interior de Igarapé-Miri, e por várias vezes, sofreu tentativas de abuso sexual pelo seu próprio pai, este nutria um ciúme doentio por ela, mas a menina e sua família, sempre ofereceram resistência. No ano de 2002, quando aconteceu este fato, Arissandra estaria com 25 anos.

Estes não foram os únicos casos, outros visitantes, também já teriam conhecido a moça do Cemitério Bom Jesus, durante a Festividade de Sant'Ana.                    


Baseado nos relatos de Dênis Araújo (morador de Boa Vista/RR) e Maria Benedita dos Santos conhecida popularmente por “Mãe Velha” (In memorian). Em vida, era moradora do Bairro do Jatuíra.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

O LOBISOMEM DE IGARAPÉ-MIRI

Ilustração: Railson Wallace

Era uma noite de lua cheia, no ano de 1908, na pacata cidade de Igarapé-Miri. A cidade ainda não possuía sistema de distribuição de energia elétrica, sendo a iluminação noturna, feita através de lampiões a querosene, que eram acesos no início da noite.

Já passava do horário da meia noite, o Senhor Jorge dormia em sua casa, quando acordou assustado com fortes barulhos que vinham do quintal. Levantou-se, pegou sua espingarda e chamou seu pai que morava junto. Este pegou um facão, e correram para o quintal, nesse momento, viram um lobisomem de aparência assustadora, que entrou no galinheiro e começou a atacar os animais. Sendo a criatura vista pelo cachorro de Jorge, que passou na frente e correu atrás do bicho.

No momento em que Jorge fez a pontaria com a espingarda para atirar, o cachorro mordeu o calcanhar do lobisomem, e ele percebendo que poderia errar e atirar em seu cão, desistiu. Desesperado, o lobisomem arrebentou a cerca do galinheiro e pulou para o outro quintal que dava saída para a rua. Pai e filho ainda tentaram perseguir a criatura, mas quando saíram da casa, avistaram o lobisomem que já ia correndo longe, fora de alcance, e sumiu na escuridão.

Outro acontecimento, foi em uma noite de domingo do ano de 1881, quando o Sr. Elói voltava da casa de um de seus vizinhos, onde costumavam jogar baralho até a madrugada. Nessa noite, ao retornar acompanhado de alguns amigos, viram na rua, um vulto branco flutuando na escuridão. Curiosos, foram olhar de perto, foi quando alguém que morava próximo ao local falou que não eles não deviam se aproximar ou mexer, pois era um lobisomem morto. Assustados, saíram correndo desesperadamente.

Outra vez, o mesmo Sr. Elói e seu grupo de amigos, ao retornarem de mais uma noite de jogo de baralho, encontraram com um lobisomem na rua, perseguiram a criatura, até que ao tentar fuga, o bicho ficou preso em uma cerca de madeira. Pegaram e amarraram o lobisomem em uma ponte de madeira que existia em uma rua, no dia seguinte, quando foram ver, o lobisomem era um de seus vizinhos.

Na época, muitos casos de aparições de Lobisomens, eram relatados por moradores da cidade de Igarapé-Miri, e talvez pela quantidade de ocorrências, a população já não tinha tanto medo assim, mas temiam muito os lobisomens mortos, que são aqueles que morreram antes de cumprir todo o seu fado.

Baseado nos escritos de Eládio Lobato, em A Fêmea do Cupim no Mundo do Folclore.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

O VELHO DA CAPELINHA

Ilustração: Railson Wallace

Existia na década de 1940, próximo à boca do igarapé Catimbáua (afluente do Rio Igarapé-Miri), um antigo casarão que ao lado, tinha uma capelinha onde eram realizadas as cerimônias católicas dedicadas à santa padroeira da família do proprietário. Devido à existência da pequena capela, o local ficou conhecido popularmente como Capelinha, denominação que persiste até hoje.

Com o tempo, o terreno foi abandonado, e na década de 90, sobravam apenas restos de madeiras, cimento e pedras, marcas do que existiu ali em outras épocas. As pessoas que moravam próximo ao local, relatavam vários acontecimentos sobrenaturais que assustavam os moradores e os viajantes que por ali passavam.

Nas noites sombrias, as casas próximas ao local onde existia a velha capelinha, eram atacadas com fortes batidas nas paredes, taboas de madeira eram arrancadas dos assoalhos das casas, e arremessadas com grande força, além de vários outros casos que faziam com que poucas pessoas arriscassem morar ali, muitos, logo se mudavam para outras localidades.

A aparição sobrenatural mais famosa na região da Capelinha, era a de um senhor muito idoso, e com aparência assustadora, que aparecia pelas redondezas do local.

No ano de 1994, uma senhora chamada Joana adquiriu parte do terreno, construiu casa e passou a morar junto ao seu marido naquela localidade. A casa era bem simples, possuía as paredes laterais, mas sem as paredes da frente e fundos, o que fazia com que parte da casa, ficasse totalmente aberta.

Em uma noite, Joana jantava sentada no chão da parte da frente de sua casa, quando de repente, viu uma movimentação estranha na ponte que dava acesso à sua residência. A ponte era feita de vários troncos de miritizeiros.

Assustada, ela direcionou por alguns minutos, o seu olhar para fora da casa, e quando voltou a olhar para próximo de si, viu um velho homem de aparência assustadora, sentado ao seu lado. O velho estendeu as mãos para ela, como se estivesse pedindo algo. Apavorada com aquela cena, Joana gritou bem alto para o seu marido, que estava na parte dos fundos da casa, ele imediatamente correu para acudi-la, mas quando chegou, o velho homem já adentrava o mato, ainda chegou a ser perseguido, mas sumiu na escuridão da floresta.

Outra aparição do velho misterioso, aconteceu em uma noite, quando Joana e sua filha foram à um igarapé próximo de sua casa, para retirar os matapis da água. Ao chegarem próximo de um miritizeiro cortado que boiava na rio, avistaram o velho homem sentado naquele tronco de árvore, e com uma lamparina enorme na mão. Assustadas, saíram remando com muita velocidade, e gritando bem alto. Ao ouvir os gritos, o marido de Joana pegou sua espingarda, saiu da casa correndo, entrou em uma canoa e foi para o local, ao chegar, não viu ninguém.

O mesmo senhor também foi avistado por Joana, várias outras vezes, andando por entre os açaizais. Os moradores mais velhos diziam que ele era um homem que morou no antigo casarão que existia naquela localidade, e que tinha muito dinheiro enterrado, por isso o seu espírito não poderia descansar enquanto alguém não encontrasse o seu tesouro, pois a sua alma só poderia prosseguir o seu destino, após quebrado o encanto que o aprisionava naquela localidade.

Obs: os nomes dos personagens foram substituídos por nomes fictícios.

Baseado nos relatos dos senhores Domingos Vilhena e Pedro Pinheiro.

sábado, 30 de maio de 2020

O BOTO DO CATIMBÁUA

Ilustração: Railson Wallace

Era ano de 1944 na localidade Catimbáua, situada às margens de um pequeno igarapé, afluente do Rio Igarapé-Miri, e que fica há poucos minutos de viagem da cidade.

Nesta década (anos 40), muitas pessoas sofreram ataques agressivos de botos, que viravam canoas, levavam mulheres para o fundo do rio, e até mesmo nas noites de lua cheia, invadiam residências onde mulheres ficavam sozinhas, sendo que os ataques aconteciam principalmente, com mulheres que possuíam filhos pequenos.

Era noite de lua cheia, já passava do horário de meia noite, Maria dava a luz ao seu segundo filho, em um quarto de sua casa, acompanhada de seu marido Manoel, seu filho primogênito, e de uma parteira. As portas e janelas da casa estavam abertas, no entanto, a porta do quarto que era feita de vários braços de miriti, estava totalmente fechada.

Maria estava em trabalho de parto, quando começaram ouvir barulhos de passos pela casa, era um barulho muito forte, como se alguém pisasse com exagerada força. Depois disso, alguns minutos de silêncio se fizeram naquele local, quando de repente, alguém começou a forçar a porta para entrar no quarto.

As mulheres e a criança ficaram apavoradas e gritavam muito, enquanto Manoel, ao ver a porta sendo forçada, também começou a força-la em sentido oposto, na tentativa de impedir que aquela pessoa entrasse no quarto. A pessoa que forçava a porta, possuía muita força.

Sabendo que não conseguiria impedir a entrada do invasor, Manoel decidiu ir para o enfrentamento corpo a corpo. Ao sair do quarto, viu que o invasor era um homem vestido todo de branco e chapéu na cabeça. A luta aconteceu na cozinha daquela casa.

Durante o combate, louças, e outros objetos caíam a todo momento no chão, fazendo com que o barulho ecoasse por toda a casa. Ao chegar próximo do jirau, Manoel pegou um terçado, e por várias vezes, golpeou aquele homem, que saiu correndo e gritando de dor, até pular na água. Logo depois, apareceu boiando no rio, um enorme boto que sumiu na escuridão.

Antes deste acontecimento, Manoel que trabalhava no Engenho Nossa Senhora do Carmo, localizado no Rio Igarapé-Miri, próximo de sua casa, e sempre precisava sair nas madrugadas, ou voltar no horário da noite, nunca mais pode viajar entre o período das 18 e 06 horas, pois quando voltava no escuro, sempre era atacado pelo boto que o tentava levar para o fundo do rio, sendo por várias vezes salvo por vizinhos ou até mesmo pelos próprios filhos.

Baseado nos relatos do Sr. Pedro Pinheiro, nascido na região do Catimbáua, hoje morador do Bairro da Matinha.