sábado, 18 de outubro de 2025

O CAVALO-MARINHO

Era década de 60 na cidade de Igarapé-Miri, o relógio já marcava uma hora da madrugada. Um jovem de 17 anos chamado João que trabalhava buscando madeira no rio Moju para abastecer uma serraria de Igarapé-Miri, estava dormindo em um barco aportado na ponte de uma casa.
De repente, João acorda assustado ouvindo relinchos de cavalo próximo ao barco. O jovem estranhou aquele barulho, pois estava em um barco no rio e não havia nenhuma fazenda próxima ao local. 
Mesmo assustado, João se levantou com uma lanterna na mão e procurou pelo cavalo que fazia aquele barulho, mas não o encontrou. Ao desistir de procurar pelo animal, João guardou a lanterna, retornou
para sua rede e voltou a dormir.
No dia seguinte, ao levantar-se, João procurou o dono da casa onde o barco estava aportado e contou sobre os relinchos de cavalo que havia ouvido durante a madrugada. O homem então explicou que se tratava de um Cavalo-Marinho, uma criatura mística aquática parecida com um cavalo terrestre, de pelos brancos, mas que também tem escamas, crina e a cauda feitas de ouro. O anfitrião também afirmou que quem conseguir pegar uma escama do Cavalo-Marinho terá muita felicidade, saúde e ficará muito rico, mas que ele aparece para poucas pessoas.

O BOTO DA BOA ESPERANÇA


Na década de 60, a Festividade de Santa Maria da Boa Esperança era um grande festejo religioso que movimentava a cidade de Igarapé-Miri. Para chegar ao local onde era realizada a festividade, as pessoas tinham que seguir pela Estrada Alves Teixeira e passar por uma pequena ponte de madeira que atravessava o igarapé que corta a Boa Esperança e deságua no rio Igarapé-Miri, na famosa Marambaia, na Matinha.
Era noite de baile na tradicional Festividade de Santa Maria da Boa Esperança. Muitas moças e rapazes dançavam ao som de música ao vivo no barracão, quando de repente apareceu um rapaz vestido todo de branco, com chapéu na cabeça e muito bonito. O homem misterioso logo chamou a atenção das moças, pois todas queriam dançar com ele. 
Enciumados, os rapazes logo ficaram com raiva do homem misterioso, pois todas as mulheres presentes no baile só queriam dançar com o rapaz de branco. Assim, o homem passou horas dançando naquela festa. 
Ao madrugar, já aborrecidos com o rapaz misterioso que roubava a atenção de todas as mulheres, os homens que estavam na festa se reuniram para encarar e expulsá-lo. Ao perceber que o grupo de homens vinha em sua direção, o homem de branco largou a moça com quem dançava e logo foi saindo do barracão em direção ao portão, mas sempre olhando para trás. Ao perceberem que o homem já estava no portão do barracão, o grupo de homens correu atrás do rapaz que, assustado, saiu correndo pela Estrada Alves Teixeira, rumo ao igarapé. Ao chegarem próximo ao sítio do Dorival Galvão, viram o rapaz subindo no parapeito da ponte e se jogar no igarapé, desaparecendo nas águas. 
Os homens passaram horas na ponte e nas margens do igarapé procurando o homem misterioso, chegando a procurar com lanternas e lamparinas, mas não conseguiram encontrar. Sem sucesso na busca, decidiram esperar na ponte até o amanhecer, pois com a luz do dia o homem não conseguiria se esconder. 
Ao amanhecer, com as águas baixas do igarapé, os homens desceram para debaixo da ponte, pois acreditavam que o homem estava escondido lá, mas não encontraram nada. Semanas depois desse acontecimento, uma das moças, que dançou com o rapaz misterioso e que morava nas margens do igarapé da Boa Esperança, foi lavar roupa em um tendal construído por seu pai na beira do igarapé. Menstruada, enquanto fazia as suas tarefas a moça foi assombrada pelo boto. 
Ao perceberem o comportamento estranho da moça, a família logo a retirou da beira do igarapé, contra a sua própria vontade. A moça fazia muita força, tentando se livrar de sua família. Vendo a situação da moça, a família levou-a para o Barracão da Tia Mimim, uma famosa mãe de santo da cidade de Igarapé-Miri. Lá a moça permaneceu por dias, participando de banhos e outros rituais para livrar a jovem da maldição do boto.
Uma semana depois, a moça retornou para a sua casa, mas, com medo, mudou-se para Belém, onde reside até hoje.

O NAVIO FANTASMA DA PONTA NEGRA


A Ponta Negra é um trecho do rio Meruu que se estende da Boca da Espera (foz do rio Igarapé-Miri), passando a foz do rio Mamangal Grande, nas proximidades da localidade Mutirão. Segundo os moradores da região, todos os anos, nas noites de São João, acontece um estranho fato que deixa todo os moradores da Ponta Negra assustados. 
Era noite de São João, na década de 50. Manoel, um senhor idoso que residia no rio Mamangal, pescava no rio Meruu, exatamente na região conhecida como Ponta Negra. O pescador, que tinha o costume de fumar cigarros feitos de tabaco, havia esquecido o fósforo em sua casa, assim ficando impossibilitado de fumar.
De repente, a escuridão da noite é cortada pelas fortes luzes de um enorme navio que se aproximava, trazendo em sua proa uma linda mulher loira, vestida toda de branco. Manoel viu naquele navio a oportunidade de acender o seu cigarro, pois sua casa ficava longe da Ponta Negra, e ir até lá custaria muito tempo. Ao ver aquela linda embarcação, remou em direção a ela e atracou sua canoa, amarrando-a ao navio, mas, ao subir, não enxergou nenhum tripulante além da misteriosa mulher. Ao subir no navio, Manoel entrou em vários compartimentos da embarcação, mas todos estavam vazios. Assim, o pescador entrou em um espaço que parecia um salão, que possuía vários instrumentos musicais, todos organizados, como se a qualquer momento fosse tocar uma grande orquestra.
Ao se aproximar do bumbo, Manoel pegou a baqueta com a intenção de bater naquele instrumento, mas naquele exato momento ouviu a voz de uma mulher que gritando ordenava:

- Bate! Bate no bumbo!

Ao ver a mulher, o pescador ficou assustado, logo desistindo de bater no bumbo. A mulher continuou insistindo, pedindo por mais duas vezes:

- Bate! Bate!

Assustado, o pescador apressadamente larga a baqueta, desamarra sua canoa e desce do navio. Ao se afastar da grande embarcação, ouve a mulher que, olhando para ele, dizia:

- Você redobrou o meu encanto!

Após a fala daquela misteriosa mulher, o navio gradativamente desapareceu na escuridão da noite sombria do rio Meruu, não deixando nenhum vestígio da sua passagem por aquele local. Se Manoel tivesse batido no bumbo, apareceriam todos os instrumentos. Já a moça misteriosa deixaria a maldição que a aprisionava no navio, e se casaria com o pescador. Manoel também ficaria muito rico, tendo muito dinheiro e ouro pelo resto de sua vida. Outros moradores também falam que o navio ou viraria uma cidade ou se transformaria em um oceano que inundaria tudo por ali, matando todos os moradores da região. 

Para alguns, o navio fantasma é a Ilha da Pacoca de Abaetetuba que se transforma em uma grande embarcação que navega pelo rio Meruu. Outros dizem se tratar de Sofia, a Cobra Grande da Ponta Negra, que teria o poder de se transformar em um enorme navio encantado, na tentativa de ficar menos assustadora e para tentar convencer algum homem a livrá-la do encanto que a aprisiona em um corpo de cobra.

SOFIA: A COBRA GRANDE DA PONTA NEGRA


Na Ponta Negra, região que abrange um trecho do rio Meruu, se estendendo desde a foz do rio Igarapé-Miri e passando pela foz do rio Mamangal Grande, segundo os moradores locais, nas noites de lua cheia, uma cobra grande chamada Sofia aparece nas águas do rio. Dizem que Sofia é uma mulher encantada, aprisionada no corpo de uma cobra.
São várias as histórias de aparição da Cobra Grande da Ponta Negra, tendo um caso acontecido em uma manhã, quando a lua cheia ainda marcava o céu azul. Mauro morava no Mutirão com sua mãe e, ao ouvirem os cachorros latindo na beira do rio, saíram da casa rumo à beirada para saber do que se tratava. No meio do rio Meruu, na Ponta Negra, apareceu uma enorme cobra boiando. Aquela serpente descomunal tinha a grossura de um miritizeiro e exalava um forte cheiro de pitiú que tomou conta daquela região.
A Cobra Grande da Ponta Negra boiava no rio Meruu, com pouco mais de um metro e meio do seu corpo e cabeça para fora, mostrando a sua grandiosidade. Assustada, a mãe de Mauro o chamou para entrar para a casa, informando-o que se tratava de Sofia, a Cobra Grande da Ponta Negra. Após entrar na casa, Mauro continuou observando a serpente pela janela, até que, ao encher da maré, por volta das 9h30 da manhã, a enorme cobra submergiu, desaparecendo nas águas escuras do Meruu.
Outro aparecimento da Cobra Grande aconteceu em uma noite bonita, quando a lua cheia clareava tudo. Por volta das 23h, uma mulher que morava na região da Ponta Negra ouviu um forte barulho de água que vinha do rio. Ao abrir a janela de sua casa, observou a água que se mexia como se uma criatura enorme nadasse escondida, submergida no rio Meruu. Logo, exalou um fortíssimo cheiro de pitiú que tomou conta das proximidades.
Em outros relatos, contam que a Cobra Grande da Ponta Negra navega pelo rio Meruu, entre a Vila Maiauatá e a Boca da Espera, sempre acompanhada por um boto branco, que também seria uma pessoa encantada, sendo que os dois aparecem somente nas noites de lua cheia. Há décadas, preocupados com as aparições da Cobra Grande da Ponta Negra, moradores da região chamaram um frei para benzer e jogar água benta nas terras e rios das proximidades. O frei negou o pedido, alegando que, caso fizesse aquilo, tudo ali poderia virar um oceano que iria submergir as casas matando todos que moravam naquela região. Sendo assim, foi melhor deixar encantado tudo que aparecia de sobrenatural naquela localidade. Alguns moradores dizem que para se desencantar da maldição que a aprisiona no corpo de uma cobra, e para ficar com uma aparência menos assustadora, Sofia, a Cobra Grande da Ponta Negra, se transforma em um enorme, bonito e iluminado navio que aparece sempre nas noites de São João. Dentro de uma das salas da embarcação tem um tambor ou bumbo, que quem tiver a coragem de bater será o responsável pelo fim do encantamento da moça, pois aqueles tambores seriam cortes na cabeça da cobra, e é através deles que a maldição poderia ser quebrada.
Dizem que ao ser desencantada, a região da Ponta Negra se transformaria em uma cidade, e Sofia assumiria a sua forma humana, fazendo da cidade encantada a sua morada. Há também quem diga que Sofia, ao ser desencantada, se casará com quem tocou o bumbo e quebrou a sua maldição, oferecendo também ao responsável pelo fim do encantamento um tesouro encantado que o deixará rico pelo resto de sua vida.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

A GOELA DA MORTE

Ilustração: Railson Wallace

No final da década de 70, a cidade de Igarapé-Miri passava por uma transformação em sua estrutura, pois começava a expansão urbana pela qual passaram todas as cidades vizinhas, como Moju, Abaetetuba, Barcarena e outras.

Em Igarapé-Miri, a principal rua era a Avenida Carambolas, que ia do trapiche até o cemitério Bom Jesus, o único da cidade. Da esquina do cemitério, tinha início a Rodovia Moura Carvalho, que por muito tempo levava e trazia os moradores para Abaetetuba em ônibus de propriedade do saudoso Zé Martins, o primeiro empresário do ramo em Igarapé-Miri. Após o cemitério, foi aberta uma rua denominada Major Lira Lobato, onde na esquina com a rodovia foi construído o Ginásio, como era chamada a Escola Aristóteles Emiliano de Castro.

A Goela da Morte é um trecho que ficava a cem metros de distância da esquina do Ginásio, em direção à antiga estrada. Havia poucos moradores nesse perímetro, e o que tinha de mais marcante exatamente na Goela, como era conhecida, era a fazenda do Sr. Antonio Bastos e o Campo de Aviação, onde aterrissavam pequenas aeronaves.

Goela da Morte foi o nome dado para uma faixa de terra de mais ou menos 5 metros de largura por 30 metros de comprimento, que servia para atravessar um conjunto de igarapés e áreas de várzea que separavam a estrada da fazenda, e por onde eram obrigados a passar carros ou pessoas que quisessem seguir viagem para fora da cidade. Era um lugar sinistro, principalmente à noite, quando o reflexo da luz da lua incidia sobre o espelho d’água e sobre a vegetação fechada que predominava no local. Tudo isso tornava o lugar assustador.

A Goela dava também acesso ao primeiro Campo de Aviação de Igarapé-Miri, que hoje tornou-se a Rua Comandante Fernando Lima, uma homenagem ao aviador que costumava fazer piruetas no ar com seu monomotor, para conquistar uma linda miriense, com quem veio a se casar mais tarde.

Um fato que marcou para sempre aquele local, foi numa manhã chuvosa em que a cidade acordou com a notícia assustadora de que um corpo estava deitado bem na porta de um morador da Goela da Morte. Esse morador chamava-se Barbalho e tinha sua residência no início da sinistra passagem. Metade dos moradores da cidade se dirigiu até o local. O corpo de um senhor de aproximadamente 70 anos, vestido com calça e camisa, porém com a cabeça quebrada na altura da testa, que parecia uma pancada desferida com um pedaço de pau. Chovia fino, e as pessoas reconheceram a vítima imediatamente. Era uma pessoa conhecida de todos e que atendia pelo nome de Raimundo. 

O detalhe mais curioso é que a pessoa que jazia ali na porta da casa de Barbalho não havia sido morta lá, e sim distante dali uns 200 metros, ou seja, no Campo de Aviação. Isso era fácil de saber, pois, apesar da chuva fina que não dava trégua, era possível ver as marcas na rua deixadas pelo assassino, quando este arrastou o corpo através da Goela da Morte até a rampa que dava acesso à casa do Sr. Barbalho. Depois deste fato, o local ficou ainda mais conhecido e, segundo alguns moradores das redondezas, mais assombrado, pois de vez em quando se ouviam gemidos e pedidos de socorro, porém ninguém ousava abrir a janela ou espiar na rua. A morte desse homem se tornou um mistério entre tantos que nossa cidade nunca conseguiu desvendar até hoje.

Após terem se passado muitos anos desse triste acontecimento, outro fato chamou a atenção da população da cidade. Pelos idos de 1978, Barbalho, que morava sozinho com a sua esposa, de vez em quando saía de manhã de sua casa e pedia socorro a qualquer pessoa que passava ou que encontrava na rua. Este senhor tinha a fisionomia transtornada e dizia não dormir mais, juntamente com sua esposa, pois jogavam pedras em sua casa, tanto de dia como de noite. Primeiro o assunto era levado na brincadeira, mas, com a insistência de Barbalho e relatos dos vizinhos, a população começou a desconfiar que tudo aquilo era realmente verdade, ainda mais que Barbalho tinha o hábito de comprar ossos de boi. Então o povo dizia que ele também guardava em sua casa ossos trazidos do cemitério.

Era tão grande a curiosidade da população daquela época sobre o assunto, que era comentado por todos, cada um fazendo sua avaliação sobre o que estava realmente acontecendo naquela casa de aspecto sinistro. Sua localização na Goela da Morte e a sombra das árvores que rodeavam a casa davam-lhe um aspecto de casa mal-assombrada, como pensavam algumas pessoas. Além disso, Barbalho juntava ossos para vender, e os vizinhos juravam que havia ossos humanos dentro de algumas caixas que Barbalho guardava a sete chaves.

Com a notícia cada vez mais se espalhando, tornou-se comum que pessoas passassem horas em frente à casa de Barbalho escutando o barulho das pedras sobre o telhado. As pedras continuavam a cair no telhado e a penúria do casal que já estava várias noites sem dormir continuava, pois o fenômeno das pedras sobre as telhas não parava nunca, atraindo inclusive a TV Liberal para fazer uma reportagem sobre os fatos para a divulgação em nível de Estado. Muitas pessoas, compadecidas com a situação dos dois anciões que habitavam aquela casa mal-assombrada, sugeriram aos presentes que trouxessem um padre para exorcizar o local ou uma mãe de santo para expulsar os espíritos do mal que porventura estivessem atormentando aquele casal de idosos. Alunos das escolas já não iam estudar, preferiam passar quase que o dia inteiro em frente à casa mal-assombrada, contemplando o desespero dos moradores e a agitação das pessoas que rezavam, gritavam, riam e até tentavam entrar para resgatar os dois moradores que já sofriam há vários dias.

Um grupo de jovens que também fazia parte daquele aglomerado de curiosos e participava daquele tumulto que se tornou aquele acontecimento inusitado, depois de discutir aquela situação, fez uma pequena reunião e decidiu entrar na casa, pois além da porta da frente permanecer fechada dia e noite, só se ouvia o barulho das pedras e gritos dos idosos a cada pedra que caía. Depois de decidido, pediram para entrar, e Barbalho consentiu após muita insistência. Após tomarem um gole de cachaça, criaram coragem e entraram. Ao adentrar na residência, se depararam com um cenário horripilante: roupas estavam no chão, muitos ossos em um canto da sala, garrafas espalhadas pela casa toda, aquele barulho de pedras sobre o telhado, e várias pedras no chão da casa. 

Barbalho andava desorientado, suava bastante, falava alto e esbravejava dizendo:

- São eles, são eles, eles querem me levar mas não vão conseguir.

Sua esposa estava sentada em cima de um baú, uma espécie de mala grande onde as pessoas daquela época guardavam objetos de valor. Estava cansada, no alto de seus 70 anos, descabelada e com olheiras. Vestia um vestido preto e estava com um véu na cabeça. A gritaria lá fora era grande, as pessoas queriam saber o que estava acontecendo, quando de repente ouviu-se um barulho de pedra no telhado do quartinho anexo à cozinha, os jovens pegaram um grande susto e tomaram mais um gole de pinga pois também já estavam com medo. Então Barbalho os levou até o dito quarto e, quando empurrou a porta, lá estava uma pedra de mais ou menos 500g no assoalho, então os garotos olharam para o telhado e nenhuma telha estava que brada, as janelas estavam fechadas, aí os curiosos ficaram em pânico, e então um deles falou:

- Nós vamos embora daqui. No que Barbalho respondeu:

- Não, vocês não podem nos deixar aqui sozinhos, não vão, pelo amor de Deus.

Pediram, então, que Barbalho trouxesse uns galhos de Pião Roxo, planta que segundo a crença afasta coisa ruim, no que o homem prontamente apanhou pela janela da casa e entregou aos jovens que começaram a bater nas paredes. Barbalho, então, pedia para que batessem nele também. Depois de várias rimpadas, Barbalho dizia:

- Dá nela também.

É claro que eles não atenderam aquele pedido e, após toda aquela sessão de descarrego e mais uns goles de pinga, repararam que a mulher de Barbalho permanecia sentada no baú como se nada estivesse acontecendo, e dirigindo para eles, um olhar estranho. Então, um deles perguntou:

- A senhora tem uma Bíblia em casa? Como ela não respondeu,

Barbalho disse:

- Ela tem, mas guarda neste Baú e ninguém consegue fazer com que ela se levante daí de cima.

Tomando mais um gole um dos jovens disse:

- Tem coisa estranha aí, essa velha esconde alguma coisa, não é possível que uma pessoa fique sem comer e sem dormir por mais de um dia e esteja nesta tranquilidade.

- A senhora pode se levantar daí desse Baú para tirarmos a Bíblia de dentro?

- Não, respondeu a senhora olhando sério.

Logo sentiram um calafrio ao encarar aquela figura estranha que abriu uma das mãos e, apontando em direção aos jovens, gritou:

- Saiam daqui! Vocês são da parte do Diabo! Fora daqui!

E a senhora começou a atirar objetos na direção dos jovens. Nisto, entraram na casa Dona Lenita, que era uma conhecida sensitiva, e seu Lola, que sempre a acompanhava nos trabalhos do ofício nestas situações. Tinham sido chamados por alguém que certamente estava preocupado com toda aquela situação. Então a sensitiva pediu que Barbalho se sentasse ao lado de sua esposa e, em seguida, pediu para que os jovens se retirassem do local. Depois disso, ela fechou toda a casa, isso por volta das 14:00h. Ouviam-se gritos, barulhos de pés no assoalho e palavras de ordem, como se alguém estivesse sendo expulso daquele local. Todos os curiosos procuraram se aproximar mais da casa maldita para ouvir melhor o som que vinha de dentro, já que não podiam ver nada pois estava tudo fechado.

Depois de horas, fez-se um silêncio aterrador dentro da casa, e, 30 minutos depois, eis que a porta principal se abriu e de dentro da casa saiu a sensitiva e seu assistente, com o dedo na boca pedindo silêncio e pedindo para que todos fossem embora. Todos que ali estavam se aproximaram para perguntar o que aconteceu com os dois anciões. Então, a sensitiva aproximou-se do grupo e explicou que os dois estavam em um sono profundo. Terminava, ali, um mistério, e começava outro: o que realmente aconteceu no interior daquela casa? A sensitiva, então, apontando para o quintal da casa, ordenou ao seu ajudante que acendesse um candeeiro que se encontrava sobre uma velha mesa na cozinha, pois a luz apagava às 22 horas em toda cidade, e já passava de meia noite.

O quintal daquela casa recebia um vento gelado, pois as árvores grandes produziam sombras que ajudavam a dar aquele ar tétrico e assombroso. A mulher, então, convidou todos para descerem até o quintal, gritando em voz alta:

- Venham agora.

Nisto, Barbalho, segurando sua mulher pelo braço, desceu a tábua que servia de rampa até o chão, com passos trôpegos e visivelmente nervosos. Em seguida, a sensitiva, apontando para baixo do assoalho da casa, pediu que alguém focasse a lanterna para baixo do jirau da casa. De repente, o foco deu em dois baús grandes. Baús, naquele tempo, eram malas grandes de madeira e serviam para guardar objetos e roupas, além de relíquias familiares. Três homens se dispuseram a puxar as enormes malas pretas e, em seguida, por ordem da sensitiva, o primeiro baú foi aberto. A surpresa foi geral, pois dentro da mala havia muitas roupas de mulher, todas pretas, vestidos, anáguas e corpetes que pareciam estar ali há muito tempo. Em seguida, um forte odor tomou conta daquele local, fazendo as pessoas se entreolharem assustadas. Então, o segundo baú foi aberto e, pasmem, o horror tomou conta de todos, pois havia dentro muitos ossos humanos.

A lanterna caiu das mãos do homem que a segurava, e um vento gelado passou apagando o candeeiro. Alguns tentaram correr, mas não conseguiram. Ao recuperar a lanterna e focar em direção ao baú, a sensitiva, olhando para o casal de anciãos donos da casa, perguntou a Barbalho:

- O que significa isso, homem?

Tremendo, Barbalho explicou a todos que, por um tempo, juntava ossos nas casas para vender, mas quando esses ossos acabaram, passou a coletar ossos no cemitério, no ossário atrás da Capela Bom Jesus que ficava dentro daquele campo santo. No baú havia crânios, fêmur e ossos humanos de todo tipo. Perplexos, todos ouviram a sensitiva dizer, em voz alta, que ali estava a causa de toda aquela maldição. Ordenou que os ossos fossem imediatamente devolvidos ao cemitério de onde foram trazidos. Com isso, cessaram os barulhos, as pedras e as assombrações. Barbalho mudou-se para Belém e nunca mais voltou em nossa cidade. Este local também é marcado, porque o irmão de Moca, chamado de Siriri, atirou em um padre chamado Martinho, mas essa é outra história macabra da Goela da Morte.

domingo, 9 de janeiro de 2022

O CURUPIRA DO CAJI

Ilustração: Railson Wallace

           Próximo à Vila Igarapezinho do Caji, existe um pequeno povoado chamado Maratauá, que é formado por três famílias que se dividem em várias casas. Devido ao fato desse povoado ser um local muito afastado da cidade, a prática da caça é muito comum entre os moradores da localidade.

           A lenda do Curupira é muito popular na Amazônia, mas na região do Rio Caji, interior do Município de Igarapé-Miri, este personagem também é chamado pelos moradores, de Mãe do Mato ou Anhangá. Para os moradores do Caji, o Curupira também pode se transformar em um pássaro chamado Inhambu-Anhangá, que emite um assovio forte, que desnorteia os caçadores na floresta, fazendo com que eles fiquem perdidos por vários dias, dentro da mata.

           Certo dia, três moradores do povoado de Maratauá, entraram para caçar na floresta. Após o dia inteiro de caça na mata, conseguiram capturar apenas um grande jabuti, com o cair da noite, um dos caçadores sugeriu que o grupo voltasse para suas casas, o que inicialmente enfrentou resistência dos outros dois. Após muita conversa, decidiram retornar para o povoado.

           Ao chegarem em um campo de natureza (área de vegetação baixa), onde estava mais claro pela ausência de árvores grandes, decidiram cortar caminho pela mata fechada por ser o percurso mais curto. Quando adentraram novamente na floresta, ouviram o assovio do Pássaro Inhambu-Anhangá, que na verdade era uma transformação do Curupira. Passaram horas andando dentro da mata, sem encontrar o caminho de suas casas, até que escureceu totalmente.

            Decidiram então parar, à espera do amanhecer, para poderem seguir em frente. Quando o sol nasceu, andaram o dia inteiro, perdidos na floresta sem encontrar o rumo de volta para casa. Depois de dias procurando o caminho de retorno, encontraram uma pequena estrada por onde era feito a retirada de madeira, seguiram pelo ramal, que os levou até as margens de um rio. Cortaram braços de miriti (buriti), e nadaram, ao chegarem na casa de um senhor ribeirinho, este informou que estavam no Rio Sumaúma, uma das localidades mais distantes do município de Igarapé-Miri.

           Os caçadores que passaram três dias e três noites na mata, após ouvirem o assovio do Inhambu-Anhangá, trocaram o jabuti que tinham encontrado, por farinha, entraram pelo Rio Pindobal, até chegarem ao ramal que dá acesso à Vila Igarapezinho. Lá encontraram um grupo de pessoas que há dias procuravam por eles.

           Ao retornarem, informaram aos seus familiares o que teria acontecido, e como ficaram desnorteados após o assovio daquele pássaro que seria na verdade, o Curupira assumindo outra forma.


Quem contou essa história?

VENÂNCIO DE JESUS PINHEIRO

Nasceu na localidade Rio Caji, no ano de 1935. O senhor Venâncio reside na Vila Igarapezinho do Caji, interior do Município de Igarapé-Miri, onde é uma das lideranças comunitárias locais.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

O ESPÍRITO DO HOMEM PRETO DA VILA IGARAPEZINHO

Ilustração: Railson Wallace

A Vila Igarapezinho, está localizada nas margens de um igarapé estreito, que é afluente do extenso Rio Caji. A maioria da população da localidade, é formada por descendentes de negros e indígenas, possuindo o povoado, cerca de 70 casas, sendo que muitas ficam ociosas durante o ano inteiro, os donos moram nas margens do Rio Caji ou em outras localidades, e só vão para o local, durante o período da tradicional Festividade de Nossa Senhora de Nazaré, que acontece todos os anos, no mês de setembro.

No mês de agosto, período que antecede a centenária Festividade de Nazaré, acontecem sempre na Vila Igarapezinho, vários casos sobrenaturais, que amedrontam os moradores da localidade, destes, o mais famoso, é a aparição de um espírito chamado pelos moradores da localidade, de o Espírito do Homem Preto, que seria um homem forte, totalmente na cor preta, que tem uma aparência assustadora.

Este espírito teria o poder o incorporar nos moradores, e até mesmo, atacar ou carregar as pessoas para a floresta. Segundo alguns moradores, este ser sobrenatural, seria um espírito vagante, e que só vai deixar de passar pela Vila Igarapezinho, depois de levar uma criança daquele povoado.

Era uma noite de domingo do mês de agosto, chuviscava forte na Vila Igarapezinho, como a localidade ainda não possuía energia elétrica, ao anoitecer, o povoado ficava totalmente escuro, a iluminação das casas eram feita através de lamparinas e velas, com exceção de poucas residências que possuíam motores movidos à óleo diesel.

Já passavam das 20h, em uma casa simples, de madeira e coberta por palha, após a janta, uma família se preparava para dormir. As crianças dormiam na sala, e os pais, no quarto. Após deitados, os pais ouviram um barulho, como se alguma coisa estivesse andando no telhado de palha. Assustados, foram até à sala e perceberam que uma das suas filhas não estava no local.

Saíram a procurar a criança nas casas dos parentes e nas residências dos vizinhos que possuíam motores, pois lá, muitos moradores se reuniam para assistir televisão, mas nenhum sinal da menina. Logo, um grupo de moradores se mobilizou para procurar a moça desaparecida, fizeram buscas na estrada (ramal que dá acesso à capela de onde sai o Círio de Nazaré do Igarapezinho), e em ramais, como o caminho que dá acesso à localidade da Boa União do Rio Caji (local onde fica o cemitério da região), foram também para o ramal que dá acesso ao Rio Pindobal, Vila Felipequara e Vila Curuçambaba (ambas em Cametá) e que também dá acesso ao povoado Maratauá, que fica próximo à localidade.

Após buscas nos ramais, não encontraram a criança desaparecida, decidiram então procurar na floresta que cerca a Vila Igarapezinho, dividiram-se em vários grupos, e adentraram pelos pequenos caminhos que davam acesso ao matagal.

Após horas de buscas, encontraram a moça em meio a floresta, totalmente desorientada, e sentada sob um formigueiro, com as mãos para trás. Após a chegada de alguns moradores ao local, a menina desmaiou. Um grupo de pessoas carregaram a criança, e a levaram para a casa de um de seus parentes. Depois do resgate, ouviram um barulho na mata, como se alguém se movimentasse entre as árvores, perseguiram aquele vulto, até as margens do igarapé, onde viram apenas um rastro, como se alguém tivesse dado um grande salto para o outro lado.

Na casa, ao recuperar a consciência, a menina relatou ter visto o vulto de um homem preto muito grande, de olhos vermelhos, e aparência assustadora, que a tirou da rede, e carregou a moça nas costas, mata à dentro. Com a grande quantidade de pessoas que procuravam a moça, o espírito decidiu abandoná-la no mato.

Ao amanhecer, levaram a moça para uma mãe de santo que morava na localidade São Domingos do Caji, próximo à Vila Igarapezinho, e ao benzê-la,  a mãe de santo falou que se tratava de um espírito maligno que não é daquela localidade, mas que passa periodicamente por lá. Este espírito entra pela estrada da capelinha, e passa pelo povoado. O seu objetivo é levar algum morador com ele, principalmente se for uma criança. Depois deste acontecimento, o Espírito do Homem Preto, passou a possuir o corpo da moça.

Outros casos envolvendo este mesmo espírito, também aconteceram no Igarapezinho. Vários moradores relatam terem visto, e serem atacados ou incorporados pelo Espírito do Homem Preto.

No mês de setembro, durante a Festividade de Nazaré, uma moça que andava por um caminho que dá acesso entre à Vila Igarapezinho e o Cemitério Boa União do Caji, teria visto o espírito durante o percurso, e após o ocorrido, teve o corpo possuído pelo Homem Preto, e também por outros espíritos. A jovem foi levada para um pai de santo da localidade Tauajó, que fica próximo à Vila Curuçambaba (município de Cametá). O pai de santo informou que o espírito entra na localidade pelo ramal da pequena capelinha, e que os pais e mães, não deveriam deixar seus filhos brincarem naquele lugar.

O mesmo Espírito do Homem Preto, já teria atacado vários moradores, durante o sono. Um desses casos aconteceu no ano de 2017, quando um homem dormia na sala de uma das casas da Vila Igarapezinho.

Recém-chegado na localidade, o homem veio da Cidade de Mocajuba, e casou-se com uma moradora do Igarapezinho. Por trabalhar na Cidade de Igarapé-Miri, passava somente alguns dias naquele povoado.

Na sala, os outros moradores da casa também estavam deitados em redes, ou conversavam em pés. Ao abrir os olhos, o jovem, viu um homem totalmente preto e forte de aparência muito assustadora, que o olhava. Os olhos daquela criatura eram vermelhos.  

Ali se travou uma batalha, o espírito tentava a todo custo enforcar o homem, que não conseguia se movimentar, e nem gritar. Sem saber o que fazer, o homem rezou o pai nosso em mente. Na medida que oração avançava, mais aquela criatura apertava o seu pescoço.

Após o fim da oração, aquele espírito largou o homem e saiu correndo para fora da casa. Desesperado, o homem se levantou daquele pesadelo. No dia seguinte, contou o ocorrido ao seu sogro, este informou que o mesmo também já teria acontecido, com outros moradores da casa.

Segundo os moradores da Vila Igarapezinho, o Espírito do Homem Preto sempre volta para atacar outros moradores.

Baseado nos relatos de moradores da Vila Igarapezinho do Caji, Município de Igarapé-Miri.